Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.
Romanos 8:28

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Técnica faz paciente resistir após coração parar por 14 minutos


A hipotermia, procedimento que salvou o consultor Afonso Beviani, foi desenvolvida nos EUA e ainda é pouco empregada no Brasil.
O Fantástico conta a história de Afonso Beviani, o homem que ressuscitou. O coração dele parou por 14 minutos, mas os médicos conseguiram reanimá-lo e ele está firme e forte, sem nenhuma sequela, graças a uma técnica que pode beneficiar pacientes do mundo inteiro.
Ele virou uma celebridade na vizinhança. “Graças a Deus estou bem de saúde. Eu morri e agora voltei”, comemora Afonso. “Lá em cima, Deus não quer gente ruim. Manda de volta e a gente tem que aguentar aqui”, brinca um amigo. “Aguentaram 14 minutos lá em cima”, responde Afonso, com bom humor.
Afonso era corredor, disputou até a São Silvestre. Agora, caminha cinco quilômetros por dia, recuperando a força do coração e matutando. A única marca que ficou foi um apagão na memória, que começou três dias antes do infarto e só voltou quando ele recobrou a consciência, uma semana depois.
“Quem me falou isso foi o meu filho e a minha filha, que eu tinha tido uma parada cardíaca de 14 minutos. Pensei que fosse uma brincadeira, eu falei 'impossível alguém ter uma parada cardíaca de 14 minutos e estar vivo”, conta o consultor Afonso Beviani.
Na família, é o assunto constante. “Pensei que era a coluna. Eu tenho um probleminha na coluna e normalmente ele me ataca. Estava doendo muito. Um sobrinho esteve em casa e me levou para o hospital, onde foi detectado que eu estava com problema cardíaco mesmo”, lembra Afonso.
De ambulância, ele foi levado para Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, e direto para a sala de cirurgia. Os médicos fizeram um cateterismo - inseriram um fio pela virilha, chegando até o coração. Quando encontraram a artéria enfartada, entupida por um coágulo, eles abriram um balão, que dilata a artéria. Em seguida, fizeram o reparo: liberaram um stent, uma pecinha que se abre, mantendo o caminho livre para o sangue.
De lá, Afonso foi para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde a doutora Luciana era a médica responsável por ele.
“Nos infartos extensos, como foi o caso dele, o grande risco do paciente é nas primeiras 48 horas”, explica a cardiologista do Incor, Luciana Facilotto.
Na madrugada, ele teve uma arritmia. O coração primeiro batia descompassado e, depois, parou. Começava uma corrida contra o tempo.
A cada choque, um sinal de que ia voltar e parava de novo. Os médicos não desistiam de continuar o procedimento chamado de ressuscitação. O coração de Afonso voltou a bater sozinho, mas ficou parado durante 14 minutos. Todo estudante de medicina sabe que, depois de três minutos sem oxigênio no cérebro, os neurônios, as células nervosas, começam a morrer. Depois de 14 minutos, a lesão é brutal.
Afonso estava inconsciente, não respondia a estímulos, não tinha reflexos básicos. Nesses casos, a maioria dos pacientes morre e os que sobrevivem, geralmente, ficam com lesões neurológicas muito graves.
O hospital avisou a família. O genro atendeu o telefone: “Eu lembro nitidamente, como se fosse hoje. Eu falei que não era o filho que estava falando, mas que eles poderiam falar comigo . Perguntei se ele morreu. A pessoa que estava do outro lado disse que ainda não”, conta o genro de Afonso Ronaldo Lucas.
Foi a doutora Luciana que deu a notícia: “Nós acreditávamos que ele teria uma evolução neurológica ruim, com sequelas graves”, disse a médica.
“Isso deixou a gente meio apavorado. Não pelo fato de ele ter qualquer déficit motor, porque isso realmente não preocupava. Mas o fato de não ter a cabeça em ordem, de a gente não conseguir mais conversar com ele. Isso era o mais difícil”, conta a filha de Afonso, Daniela Lucas.
Foi aí que o Doutor Sergio Timerman sugeriu uma técnica desenvolvida nos Estados Unidos e ainda pouco empregada no Brasil para casos como o de Afonso - a hipotermia.
“Com a hipotermia, nós estamos ganhando em torno de 35% a 50% de chance de diminuir a sequela neurológica e sobreviver o paciente”, explica o cardiologista Sérgio Timerman.
A técnica envolve aplicar muito gelo até baixar a temperatura do paciente para entre 32ºC e 24ºC. É um procedimento delicado. Acima de 34ºC, não faz efeito. Abaixo de 32ºC, pode matar o paciente. Para ajudar, o soro sai do congelador direto para a veia do paciente.
Nesse período, o metabolismo do paciente se reduz ao básico para ficar vivo e concentra o gasto de energia na recuperação do cérebro.
“Você priva esse cérebro de oxigênio e você tem que dar tempo a ele de se recuperar. Existem células que já morreram ou tem células que estão naquela dependência se vão ou não vão morrer”, acrescenta o médico Sérgio Timerman.
Depois de 24 horas, a aplicação de gelo foi suspensa e a temperatura voltou ao normal. Mas foram dias sem sinal de melhora.
"Todo dia que nós chegávamos na UTI, eu e meu irmão olhávamos para ver se tinha o tubo. A gente queria que tirassem o tubo. E a gente olha e via que ele ainda estava entubado”, lembra a filha de Afonso. Até que numa manhã, ele se mexeu e mostrou que estava consciente.
“Respondia com o braço, fazendo jóia, fazia assim com o olho, você já percebe que o paciente está tendo contato com a gente”, conta a médica.
“Quando chegamos lá, abrimos a porta da UTI. Alguém veio rindo e falou ‘hoje vocês vão estar felizes’. Quando a gente entrou no quarto, ele estava com uma cara de assustado, olhando para gente, querendo falar, sem voz. Acho que foi a hora mais feliz, porque ele reconheceu a gente de pronto. Era um medo que a gente tinha, de ele voltar e não saber quem a gente era, não lembrar de nada. Na hora ele falou ‘oi filho, oi filha’. Aí a gente ganhou o presente de Natal”, diz Daniela, emocionada.
“A outra imagem que eu me lembro sou eu no hospital, de mãos dadas com os meus filhos. A Doutora Luciana na minha frente e me perguntando se eu sabia onde eu estava. Eu olhei, mas também não precisa ser nenhum mágico para saber. Falei que sabia que estava no hospital. Foi aí que a Doutora Luciana, de um jeito todo característico dela, começou a me explicar o que é que eu tinha tido”, lembra Afonso.
Se os neurônios estavam morrendo, então, como é que o paciente se recuperou e sem sequelas? A resposta honesta dos cientistas é que eles não sabem exatamente por que isso acontece. O que eles já entenderam, no entanto, é que a morte não é um evento - não é no momento em que para o coração que todo o organismo, todas as células morrem. A parada do coração é só o início de um processo, que leva à morte de todas as células. Ao resfriar o paciente, esse processo, em alguns casos, pode ser interrompido.
“Nós estamos vivendo uma nova era dentro do atendimento da parada cardíaca. Qual é o momento em que nós devemos parar de tentar salvar essas pessoas que já foram consideradas mortas? No passado, em muitos desses pacientes não se fazia absolutamente nada. A hipotermia veio para ficar. Devemos fazer isso em todos os pacientes que voltam de uma parada cardíaca com alguma alteração neurológica. Não fazer é fazer um tratamento não completo nesses pacientes”, explica o médico Sérgio Timerman.
Fazer é dar a gente como Afonso a chance de ver a neta crescer, de completar seu ciclo de vida. A única sequela, a memória daqueles dias e não faz falta.
Afonso conta que se sente como se tivesse tido uma segunda chance. “Agora, é só agradecer, agradecer e agradecer”, finaliza Afonso, com muita emoção.

fonte: http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1480731-15605,00-TECNICA+FAZ+PACIENTE+RESISTIR+APOS+CORACAO+PARAR+POR+MINUTOS.html