Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.
Romanos 8:28

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Vantagens do telefone único de emergências


Em 11 de fevereiro foi comemorado o Dia Europeu do 112. O número único para emergências na Europa é semelhante ao sistema 911 americano, onde uma central concentra os atendimentos das chamadas que necessitam da atuação dos serviços como a polícia, bombeiros e profissionais de saúde. Obrigatório a partir de 1991, o número está sendo implantado em todos os cantos do continente. Na Catalunha, comunidade autônoma da Espanha, o sistema foi implantado pelo médico Agustí Ruiz Caballero, que para isto estudou o funcionamento do sistema em outros países europeus que já o adotaram, levantando os pontos fortes e também os que ainda precisam ser adequados. Entre os pontos importantes observados, segundo Agustí, está a agilidade dos atendimentos que o sistema proporciona, ao mesmo tempo em que revela que é preciso melhorar a gestão das emergências. Sobre esta implantação na Catalunha e uma visão geral do 112 na Europa, o médico conversou com Emergência durante o Congresso Panamericano de Trauma, em Campinas/SP, realizado pela SBAIT.
Como foi a implantação do 112 na Catalunha? Funciona a integração dos órgãos de Emergência?Os sistemas não estão integrados. O que está sendo integrado é o telefone único para emergências. O sistema majoritário na Catalunha seria o que corresponde ao Samu no Brasil, mas os bombeiros também têm seu próprio serviço de emergência, apesar de pequeno. Esta é uma influência do sistema francês, onde predominam os bombeiros no APH. Agora, integramos tudo num telefone único de emergências que já existe em toda a Espanha e na Europa, o 112. Esta é a grande diferença, pois podemos discutir sobre modelos diferentes, serviços públicos ou privados, mas não podemos permitir que uma emergência não seja coordenada corretamente. O Estado tem que dar resposta ao cidadão. Para isto, é preciso uma estrutura mínima de coordenação de emergências. Por ter preparado o projeto e instaurado o 112 na Catalunha, tenho viajado muito para ver as experiências de outros países e conhecido muitos modelos públicos e privados, mas não posso dizer qual é o que funciona melhor. Posso citar um caso concreto como o de Munique, por exemplo. O 112 de Munique coordena 17 empresas privadas de ambulâncias diferentes, que têm seus próprios segurados, mas quem manda nas ambulâncias é o 112. Se o doente não tem dinheiro ou não é segurado, não tem importância, alguém paga depois. Há convênio entre todas as ambulâncias. Mas quem coordena, define e manda é o 112. Este é um serviço que usa os recursos privados em situação de emergência. Portanto, está claro que a tendência dos países mais desenvolvidos é otimizar os recursos, pois não tem sentido duplicar esforços, nem ter telefones de emergência diferentes exatamente com a mesma função. Ter um número para os bombeiros e um número para o Samu é absurdo.

Quando o 112 foi instituído na Catalunha?
O 112 foi acordado pela Comunidade Européia em 1991. Em 1997, a Espanha fez um Decreto onde obrigava a implantação pelos estados. Então, todas as comunidades autônomas da Espanha, equivalentes no Brasil aos estados, hoje têm o 112 implantado.

Como era a situação dos atendimentos antes do 112?
Era um caos. Ocorria uma emergência e não chegava ninguém. Depois chegavam todos ao mesmo tempo. Portanto, era um absurdo. Uma má utilização dos recursos públicos e privados. Desde 1997, todas as comunidades autônomas têm que ter o 112, mas a princípio, podiam conviver com os telefones antigos. Por um tempo os telefones conviviam, mas agora há comunidades onde só há o 112. E eu fui o protagonista disso. Na implantação do 112, o primeiro número que morreu foi o dos bombeiros, 085. O que eu fiz? Mudei todos os caminhões de bombeiros para 112. Assim como toda a comunicação e propaganda externa dos bombeiros ficou 112. Mas não podíamos acabar com o 085, porque muita gente conhecia este número. Portanto, um convivia com o outro. Este foi o caminho até chegar num momento em que os telefonemas para o 085 eram mínimos. Estatisticamente não tinha sentido permanecer com ele e acabamos cortando. Mas isto está sendo feito em todas as comunidades autônomas da Espanha.

Quais as maiores vantagens do 112?
Agora você pode ir a qualquer país da Europa e telefonar para o 112 que tem resposta direta. Se eu, como europeu, vou para os Estados Unidos e não lembro o telefone de emergência de lá, eu marco o 112 no meu aparelho que cairá na central 911. Mas, temos dois modelos diferentes de gestão das emergências. Um que mantém um call center que recebe as chamadas, classifica-as e encaminha a outros centros de coordenação que gestionam seus recursos. O outro que, ao receber as chamadas, já gestiona os recursos. Estes dois modelos convivem na Europa. Eu sou um claro defensor da gestão integrada de emergência. Eu acho que a emergência tem que ser regionalizada, mas todos os corpos operativos daquela região específica da chamada têm que estar juntos na mesma sala, com o mesmo sistema de informática e os mesmos procedimentos. Então, não é só a integração do número, mas dos corpos operativos envolvidos na coordenação da emergência também é muito importante. Estamos, por exemplo, conectando a central de emergências de bombeiros e de atendimento médico para ficarem juntas, fisicamente falando. Em Madri, estão mais avançados do que nós. Lá o 112 já tem em suas salas, a polícia, bombeiros e atendimento médico juntos. Em outras regiões também. Esta mudança representou uma melhora radical na eficácia e eficiência dos atendimentos de emergência.
Qual o maior problema de uma central de emergências unificada?
É muito cara, por isto, às vezes, os governos ficam aflitos e vetam esta integração. Se fossem empresas privadas, o cálculo seria muito fácil. São feitos investimentos em comunicações e equipamentos, e se amortizam estes investimentos em quatro ou cinco anos. Uma central de emergência é um equipamento que se amortiza em um ano. Só a redução dos tempos perdidos no atendimento das emergências é impressionante. O custo das chamadas telefônicas entre as corporações para tentar se coordenar é brutal. Ninguém enxerga isto. Ninguém calcula quanto se gasta para os bombeiros chamarem o Samu ou o Samu chamar os bombeiros. Além disto, muitas vidas são perdidas por falta de coordenação.
Quais estão sendo as principais resistências para este projeto?
Resistências basicamente corporativas e de interesses econômicos. Existe uma frase padrão dos defensores dos telefones de emergência independentes. Uma delas é que não se pode ter um telefone que sirva para todos, porque o tipo de assistência que se dá a um atendimento médico é diferente ao que pode dar um bombeiro num caso de incêndio. Mentira. Há uma máxima das centrais de emergência que diz: quem chama, de onde chama e o que acontece. São estas as três perguntas e, a partir destas informações, tudo é feito por cooperação. Além disto, é preciso ter uma pessoa com formação prévia mínima nos três âmbitos da emergência: segurança, atendimento médico e bombeiros. Isto é mais que suficiente.
Diferentes órgãos de Emergência usam o mesmo software nas centrais?
Falo de informação unificada e o software tem que ser unificado. Isto não quer dizer que o desenvolvimento do software tenha que ser igual. Mas existe um único software base e dele se pode fazer módulos específicos, dependendo do tipo de serviço. Por exemplo, módulo de bombeiros, módulo atendimento médico, módulo policial, mas os dados do atendido são os mesmos. E isto está funcionando agora em Madri e Barcelona.
A Catalunha desenvolve os próprios softwares?
DDeixamos de desenvolver softwares próprios. Há softwares no mercado muito bons para emer¬gência. Os softwares novos estão concentrados, a maior parte, na Europa, pois foi quem cresceu mais neste âmbito. Temos softwares que permitem coisas impensáveis. Por exemplo, neste momento, estamos com o software que permite a localização de telefonemas de celular. Quando a pessoa telefona para o 112, aparece o nome dela, o endereço e um mapa apontando o lugar onde está o sinal do telefone. É integração da telefonia no aplicativo informático. E podemos integrar neste sistema todas as tecnologias como rádio, fax, internet, entre outros. Então, um alto diretor de emergência pode ter acesso à informação da central de emergênias em tempo real. E o que significa isto? Ganhar tempo. E esta é a perspectiva de vida do paciente.
Existem outras tecnologias usadas pelos serviços de emergência da Catalunha?
Agora, estamos trabalhando para integrar o histórico clínico dos pacientes dentro dos aplicativos de informática. Isto vai servir para os centros de saúde, para os hospitais, por exemplo, saberem mais sobre um doente. Também temos um projeto para o acesso dos surdos-mudos aos serviços de emergência através do MSN e outros sistemas. A outra tecnologia que está sendo implantada também é a inserção de um sensor de temperatura, de impacto e energia cinética dentro dos carros que alerta o serviço de emergência, priorizando um carro que se envolve num acidente grave. Não pararia de citar as tecnologias, pois são muitas.
Como é a questão dos trotes na Catalunha e quais são as punições?
É muito grave. 95% das chamadas do serviço de emergência são de trotes ou erros. Estamos discutindo na Espanha uma mudança na legislação, pois há países que são mais restritivos e punitivos nisto. Por exemplo, em Porto Rico são seis meses de prisão por uma ligação destas, pois é considerado um delito grave. Já na Espanha é uma falta administrativa, o que nada significa. Então, estamos mudando isto.
O SAMU na Catalunha é inspirado no modelo francês? Como funciona?
O modelo de resposta médica na emergência está muito ligado a questões econômicas e a quantidade de médicos disponíveis. Num país onde há muitos médicos ou onde o trabalho dos médicos não é muito valorizado há conflito por que querem ocupar a emergência médica. Num país onde os médicos são mais valorizados, como Estados Unidos, não há médicos no pré-hospitalar, porque o estado não pode pagar para que eles atuem na rua nem os mesmos querem iso. Portanto, há uma questão econômica e uma de mercado de trabalho, que condicionam. Na Espanha, anteriormente, se optou pelo modelo francês do Samu de inserir os médicos em todos os serviços, pois na oportunidade não havia trabalho para todos os médicos. Havia médicos demais. Agora, estamos com crise de médicos. Ninguém reivindica mais todo trabalho para os médicos. Hoje os profissionais mais importantes na emergência médica são os enfermeiros e os técnicos de Emergência. Esta é a realidade. Há um modelo irreal que é o francês de “medicalização” da emergência. Agora, vivemos a “desmedicalização” da emergência. Todos gostariam de ter perto de sua casa uma ambulância com médico, com enfermeiro e com técnico de Emergência, mas isto é inviável economicamente. Então, o que acontece? Se existe uma boa central de coordenação de emergência, pode-se ter um modelo misto. Você mobiliza um primeiro recurso que está mais perto do acidente e, seja qual for, tem que ter pessoas formadas no âmbito médico também. Isto faz com que a informação que elas forneçam seja determinante para deslocar, ou não, outros profissionais ao local. Mas aqui há outro problema: Os enfermeiros têm capacidade legal para fazer intervenções? Sim e não. E mais um problema. Nós utilizamos as centrais de emergência para dar ordens médicas porque fica tudo gravado e é prova judicial. Eu, como médico da central, posso dar autorização ao enfermeiro a fazer um ato médico. Então isto é a realidade, estamos caminhando nesta linha.
Existe conflito entre os bombeiros e SAMU?
Esta é uma questão importante se temos que centralizar todos os serviços nos corpos de bombeiros ou devemos ter estruturas separadas. Eu sugiro que se observe o que fizeram os países mais desenvolvidos que por anos vivenciaram isto e hoje não querem mudar. Os países do Norte da Europa, todos, têm emergências médicas de volta para os bombeiros. Porque a prevenção aumenta, o trabalho dos bombeiros baixa e, se queremos otimizar recursos, habilitamos os bombeiros para determinadas técnicas para podermos ser mais eficientes, além de pouparmos dinheiro público e melhorarmos a emergência. É preciso apenas colocar médicos na estrutura dos bombeiros para garantir um sistema de atendimento de forma correta. O sistema Samu o que significa? É preciso contratar motoristas, veículos, prédios, telefones, equipamentos e sistemas de comunicação à parte. E isto poderia ser compartilhado tranquilamente. É uma questão de eficiência empresarial também. A verdade é que o tempo de trabalho efetivo real de um bombeiro num incidente é muito pequeno. O tumor maligno que há nos serviços de emergência é a inatividade. Este é um problema grave. Isto é terrível, porque as pessoas perdem a vontade de trabalhar. Num serviço de emergência saudável os profissionais devem ter muita atividade, portanto tem sentido compartilhar as atividades de APH e bombeiros, evitando o colapso. Esta guerra existe, mas vai acabar quando as questões econômica e laboral forem modificadas. Acredito que o futuro vai ser a unificação, transformando os bombeiros em profissionais de emergência.
Como foi sua experiência no terremoto da Turquia?
Uma coisa importante que eu notei quando existe uma expedição de colaboração em tarefas de resgate em um país: o altruísmo não supre a profissionalização. Ter muita vontade de ajudar, não quer dizer que se ajude mesmo. A Turquia estava cheia de pessoas voluntárias sem capacidade profissional, prática e física para ajudar, se convertendo num problema logístico grave. Os governos que estão no meio de uma catástrofe precisam de equipes profissionais muito especializadas autônomas e autossuficientes. Portanto, quando qualquer um chega num país para ajudar, tem que levar roupa, comida, água, levar tudo. Por quê? Porque tem que sobreviver sozinho lá. Por outro lado, eu comprovei, por exemplo, que a resposta do pessoal médico da Turquia foi impressionante. Todos os médicos que estavam inativos foram para o local do acidente. Mas qual o grande defeito ao mesmo tempo? O pessoal de resposta às emergências era do intra-hospitalar, sem experiência no pré-hospitalar. Outra mensagem: a profissionalização e formação específica do pessoal neste tipo de evento, principalmente através de simulados, é muito importante. Isto é a diferença de uma resposta qualificada e profissional a uma resposta muito bonita, mas nada eficaz.


Fonte: Revista Emergência, Edição 14 - 18/12/2009