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Romanos 8:28

sábado, 26 de dezembro de 2009

FAB e Marinha protagonizaram a maior operação de buscas já realizada no Brasil



Eram 2h30min do dia 1º de junho quando o Departamento de Controle do Espaço Aéreo do Brasil acionou os primeiros meios de buscas ao Airbus A330 da Air France, que havia decolado seis horas antes do Rio de Janeiro, com destino a Paris. Às 23h20min de 31 de maio, a aeronave deveria ter comunicado sua entrada no espaço aéreo do Senegal, mas não o fez. Oficialmente, o voo AF 447 estava desaparecido.
Sua queda só seria confirmada na manhã de 6 de junho, quando foram coletados pela Corveta Caboclo, a noroeste do arquipélago de São Pedro e São Paulo, os primeiros destroços que, realmente, pertenciam ao avião francês. No mesmo dia, às 9h10min, era avistado o primeiro corpo, recolhido 20 minutos depois. O último encontrado foi resgatado em 17 de junho. Dos 228 passageiros e tripulantes mortos na tragédia, 177 não foram encontrados.
A queda do AF 447 resultou na maior operação de resgate já realizada em águas brasileiras, mobilizando 1.612 militares da FAB (Força Aérea Brasileira) e da Marinha do Brasil. Durante 26 dias de buscas, foram recolhidos 51 corpos e mais de 600 partes estruturais do avião, além de bagagens diversas.
Na operação, que teve Fernando de Noronha como base, a FAB utilizou 12 aeronaves e contou com o apoio de aviões da França, EUA e Espanha, voando cerca de 1.500 horas e realizando buscas visuais em área correspondente a 350 mil quilômetros quadrados, além do avião R-99, que, eletronicamente, vasculhou 2 milhões de quilômetros quadrados. Já a Marinha atuou com 11 navios em revezamento, percorrendo oito vezes a extensão da costa brasileira, aproximadamente, com o auxílio de duas embarcações francesas.
Os corpos resgatados foram entregues à Polícia Federal e à Secretaria de Defesa Social de Pernambuco para identificação. Já os destroços da aeronave e as bagagens foram remetidos ao órgão francês responsável pela investigação, que conta com o apoio do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), do Brasil.
A elucidação sobre o que provocou a queda da aeronave, no entanto, fica prejudicada pela ausência da caixa-preta, que contém a gravação de dados e voz do avião. Um navio oceanográfico francês rastreará o oceano Atlântico até setembro, possivelmente. Sem localizar o equipamento, é possível que o desastre nunca seja esclarecido, aumentando a dor de familiares.


Resgate

A bordo da Fragata Bosísio, o capitão-de-Fragata Cláudio José d’Alberto Senna viveu durante as buscas ao AF 447 algumas das maiores emoções em seus 30 anos de Marinha, quase dois deles no comando da embarcação. A Bosísio resgatou, diretamente, quatro corpos e recebeu outros 27, totalizando 31 vítimas transportadas até Noronha.
De 2 de junho até 5 de julho, quando regressou para a sua base no Rio de Janeiro, foram 34 dias de trabalho, entrega e reflexão sobre a maior tragédia aérea em área jurisdicional brasileira. O momento mais marcante para o comandante Senna foi a localização dos primeiros corpos, quando a esperança deu lugar a profunda tristeza, já que poucas eram as chances de resgatar sobreviventes.
“Foi um momento crítico, pois havia a necessidade de motivar a tripulação e mudar o foco da tarefa. Não iríamos mais resgatar sobreviventes, mas recolher corpos e destroços, o que é bem diferente”, afirma. Os argumentos utilizados para manter a motivação elevada foram a importância e o significado, para familiares e para a investigação, da entrega dos corpos e materiais recolhidos.
Além do desafio emocional, havia a barreira da logística: manter navios operando corretamente a grandes distâncias das bases de apoio por longos períodos. Outras dificuldades estavam no próprio comportamento do mar. Explica o comandante Senna que o vento e a corrente marítima contribuíram para dispersar os corpos e objetos por uma grande área (44 quilômetros por dia em relação à posição inicial).
Havia ainda o lixo marinho, materiais largados no mar por embarcações durante as tempestades e que podem ser confundidos com destroços da aeronave acidentada. Foi o que ocorreu nos primeiros dias da busca ao Airbus da Air France.


Técnicas

Para o resgate, foram utilizadas as técnicas e procedimentos preconizados de operações de busca e esclarecimento tradicionais. Ao encontrar um destroço, um avião da FAB acionava um navio da Marinha, que se aproximava do local. Da embarcação, partia um helicóptero, que lançava um sinalizador de fumaça para que o navio se aproximasse e fizesse o recolhimento com o auxílio de mergulhadores. “É um trabalho de equipe”, afirma o capitão-de-Fragata.
O serviço a bordo do navio foi dividido por turnos. Três equipes se revezavam e havia também um grupo de serviço permanente que atuava quando necessário, permitindo atuação em tempo integral. Uma equipe médica, com um médico e dois enfermeiros, cuidou dos tripulantes e atuou no recebimento e tratamento dos corpos recolhidos. Não foi registrado nenhum caso de exaustão física ou psicológica a bordo.
“Fizemos tudo o que era possível para resgatar o maior número de corpos e destroços. Ao final da operação, estávamos tristes por não termos conseguido resgatar todos os corpos. Ao mesmo tempo, temos a sensação de que cumprimos nosso dever. Tudo o que estava ao nosso alcance, tudo o que era possível, foi feito”, conclui.


Abalo Emocional

A tragédia com o voo AF 447 deixou 228 mortos, mas famílias de 177 vítimas estão condenadas a conviver com uma dor ainda maior: a de não poder sepultar seus entes queridos. Se o abalo emocional de quem teve o familiar localizado já é grande, a probabilidade de adoecimento emocional pode ser potencializada no caso da ausência do corpo.
É para isso que alerta o psiquiatra clínico e psicoterapeuta José Toufic Thomé, vice-presidente da Abrest (Associação Brasileira dos Especialistas em Situações Traumáticas), presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia, coordenador de Intervenções em Desastres e Catástrofes da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e representante brasileiro da mesma seção na Associação Mundial de Psiquiatria (WPA, na sigla em inglês).
Segundo o psiquiatra, todas as pessoas que perdem familiares em tragédias sofrem um sério abalo emocional e precisam de acompanhamento especializado, imediatamente, e nos meses e anos seguintes ao fato. Já quem não teve o familiar localizado, mesmo que compreenda, racionalmente, o acidente, poderá estimular, em seu inconsciente, a fantasia de que ele poderá ser encontrado.
Estudos da WPA indicam que a ausência de suporte profissional para os familiares de vítimas de catástrofes representa quase um encaminhamento para sequelas. Para cada pessoa danificada por uma perda direta em desastres, há aumento da probabilidade de adoecimento emocional propagado para outras 200 pessoas em seu entorno.
Dados estatísticos da Organização Mundial de Saúde revelam que, nos anos posteriores a desastres como o Furacão Katrina e o Tsunami, até 60% das populações dessas regiões apresentaram incidência de algum tipo de distúrbio ligado à saúde mental. Em populações em condição de normalidade, esse percentual não chega a 20%.
No Brasil, revela Thomé, um trabalho preventivo de acompanhamento de populações expostas a situações de catástrofe foi realizado em Santa Catarina, após a calamidade natural de 2008. Por meio do Programa ABP Comunidade, foram sete meses auxiliando os profissionais que prestam apoio direto aos atingidos pelo desastre.
Protocolos internacionais determinam que o acolhimento nos primeiros momentos é vital, pois oferece respaldo emocional em um período no qual as pessoas ainda não conseguem representar, mentalmente, a situação que estão enfrentando e a perda que sofreram. “Nos dias posteriores ao acidente com o voo AF 447, eu ofereci apoio dos profissionais da Rede IberoAmericana de Ecobioética e da Abrest à empresa Air France, mas não recebi retorno”, diz o psiquiatra.
Outro fator complicador são os “excessos” da cobertura jornalística. Thomé lembra de reportagens veiculadas nos dias posteriores ao acidente, quando as investigações apenas tinham iniciado, que traziam animações, simulações e infográficos, mostrando aviões explodindo, sendo atingidos por raios, sofrendo blackout e tendo asas ou a fuselagem partida. “As pessoas assistiram ou visualizaram essas criações fantásticas e, em um período de desordem emocional causada pela informação sobre o acidente, podem ter desencadeado o início de um processo de adoecimento”, afirma.
Já a presença de familiares em Recife, acompanhando detalhes do resgate, é benéfica, pois eles tendem a se sentirem amparados em sua perda. Thomé defende que, quando o familiar interpreta que estão sendo empreendidos esforços e oferecidos os cuidados possíveis, a reparação emocional da perda pode ser melhor elaborada.
No entanto, se a causa do acidente permanece inexplicada, como ocorre com o desastre da Air France até agora, gera-se novo agravante à fragilidade emocional. Sem uma explicação plausível, alega Thomé, as possibilidades e temores pessoais sobre incidência do trauma ficam hiperdimensionados.
Sob o aspecto da psicologia de desastres, de maneira geral, o psiquiatra afirma que o Brasil está pouco preparado para lidar com catástrofes, pois há um procedimento público padrão que tende a minimizar as consequências e responsabilidades, esconder falhas sérias nas redes de atendimento e resumir os debates às solicitações de auxílio financeiro.
“Ao vivenciarmos situações de desastre e não mais mostrarmos reação diante da sua perpetuação, estamos banalizando o nosso sofrimento. É provável que essa atitude de inércia coletiva resulte no adoecimento emocional da parcela de pessoas que se mantém em equilíbrio instável”, finaliza.


Fonte: Revista Emergência, Edição 16 - 10/12/2009